segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Realidade: composição sobre o concreto

"Tristes das almas humanas que põem tudo em ordem(...)
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e
[florida do que isso!"
(Alberto Caeiro)

Há séculos a existência tem sido pauta fundamental de discussões filosóficas e investigações científicas, inúmeras vidas sendo dedicadas à tentativa de traçar uma nítida divisão entre o real e o ilusório. Platão defendia que a existência material era derivada do "plano das idéias", que seria o verdadeiro, enquanto Einstein dizia que a definição de realidade dependia do referencial, sendo, portanto, relativa. Uma realidade paralela ao mundo material foi criada pelo homem, existindo ainda realidades individuais que comportam elementos específicos de cada ser humano. O conceito de real é, portanto, relativo.
Dentre as possíveis "realidades", uma pode ser considerada absoluta, a material, por ser perceptível a qualquer ser vivo dotado de sistema sensorial; a característica material, sabe-se hoje, é devido à aglutinação de minúsculas partículas que se combinam formando a matéria existente.
Por ser dotado de consciência, uma elevada capacidade de cognição e abstração, o homem criou uma porção relativa sobre o mundo físico, representando coisas concretas por meio de imagens, sons, ou uma seqüência de letras e inventando conceitos abstratos como o tempo e os sentimentos.
A realidade individual é, possivelmente, a de caráter mais relativo, posto que implica na junção das experiências pessoais aos outros tipos de realidade, criando, cada indivíduo, um mundo específico em sua psique.
Numa determinada situação, portanto, em que está presente o cheiro de terra molhada, uma pessoa, ao senti-lo, pode lembrar-se da infância, outra, apenas identificar o odor, e alguém que não conheça tal cheiro, simplesmente percebê-lo. Pode-se afirmar, assim, que a realidade é uma composição de partes relativas sobre um mundo concreto, o único absoluto.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Amigos da sabedoria

Na Grécia Antiga, Pitágoras de Samos cunhou o termo "filósofo", dizendo ser o conhecimento absoluto posse exclusiva dos deuses, podendo o homem mortal apenas ser "amigo da sabedoria". Por toda a histórica existência do ser humano, este acumulou conhecimentos na tentativa de explicar o ambiente em que vive, podendo melhor ordenar suas condições para seu próprio prazer e conforto. Para a transmissão dessa imensa gama de conhecimentos, fundou-se uma instituição, a Escola, hoje degenerada dessa nobre função primordial.
Constata-se, no Brasil, um irrefutável sucateamento do setor, tanto no na esfera pública, principalmente, devido à falta de investimentos e precária gestão, quanto na privada, entregue ao ensino voltado para os vestibulares de universidades, paradoxalmente, públicas.
A queda no sistema educacional brasileiro pode ser explicada por um acordo do Ministério da Educação com um órgão norte-americano, durante o período da repressão militar, que visava à americanização das escolas brasileiras. Diminui-se o número de anos de escolaridade básica e retirou-se do currículo-padrão disciplinas como sociologia e filosofia, ao mesmo tempo em que se privilegiou métodos tecnicistas para o ensino das demais matérias, medidas que auxiliaram na manutenção do regime ditatorial.
A notável diminuição no padrão de ensino da rede pública, por sua vez, acarretou a degeneração do ensino privado, que poderia, então, sustentar-se oferecendo um nível de educação apenas levemente superior ao público, atraindo, assim, principalmente a classe média, que poderia arcar com seus custos. A educação passou, dessa forma, de um instrumento de inclusão a uma notável forma de exclusão social.
Muito além de destinar verbas ao setor, o papel do governo na educação deveria ser o de fiscalizar a materialização desse capital em obras profícuas para as escolas do país, dentre as quais deve-se destacar o estabelecimento de um justo salário aos professores, bem como programas que visem à qualificação destes. Projetos que prevejam a melhoria na infra-estrutura dos prédios escolares são também necessários.
Além do papel do Estado, faz-se necessária uma ampla mobilização da sociedade, partindo das classes de maior erudição, para a valorização de conhecimento à moda dos filósofs gregos. Motivando-se o desejo pelo conhecimento, muda-se a própria estrutura atual de ensino, os alunos sendo levados a aprender por si só, contando com os professores como orientadores, num processo similar à maiêutica socrática.
Tem-se, assim, as bases que estruturariam física e moralmente um projeto educacional brasileiro. Infra-estrutura e prazer complementar-se-iam, alicerçando o principal pedestal para uma futura, e, por enquanto, utópica, igualdade social.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Liberdade: que estátua é essa?

"Estou brincando de estátua da liberdade,
com um livro de fábulas numa mão
e uma lâmpada apagada na outra."
(Mafalda - personagem dos quadrinhos)

Componente de lemas de revoluções burguesas, nome de uma estátua na capital consumista do mundo, e reivindicada por todas as populações e pessoas, a liberdade, em suas variadas conotações, é um dos temas mais discutidos da História. Como conceituação primitiva tem-se a idéia de liberdade individual, a possibilidade conferida aos indivíduos de deliberar sobre o curso de suas vidas. Essa liberdade, considerada direito primordial do Homem, é assegurada pela maioria das Constituições, mas tem sido, contudo, restringida por diversos fatores, como possibilidades financeiras e ideologias impostas, limitando-se, assim, a capacidade expressiva e construtiva dos indivíduos e de toda a sociedade.
O conceito atual de liberdade é fruto da organização social, pois esta impôs ao Homem a máxima valorização da vida, em detrimento da visão da morte como fator natural, concepção existente no meio estritamente biológico. A liberdade formava-se como uma característica do coletivo, e não apenas de um ser em si, e seviria para garantir a vida de todos os indivíduos e a maior expressão destes, sem que algum, no entanto, prejudicasse o grupo.
O exercício desse direito humano irrevogável representa, portanto a afirmação do cidadão no meio social, obtendo-se, assim, a confirmação dos predicativos morais perante a sociedade. Valendo-se de sua liverdade, o indivíduo mantém responsabilidades pessoais e sociais, utilizando sua criatividade e potencial em prol do grupo que lhe permitiu formas de governo; contradições, dentro dos sistemas são constantes, havendo, com freqüência, classes mais "livres" que outras.
A própria Grécia Antiga, berço da Democracia, criou o exílio e utilizou como base de sustentação para sua economia um regime escravista, ambos ataques à proposta de liberdade, esta privilégio de poucos. No atual capitalismo, intitulado "o sistema liberal", há liberdade quase que restrita ao plano econômico, a "livre-concorrência", da qual desfrutam as classes mais abastadas, que têm o poder de escolher o que consumir, ou "de quem" consumir.
Quando cerceada a liberdade, o que ocorre também ao se impor uma ideologia de massa pela mídia, há uma homegeneização das mentes dos indivíduos, facilitando o controle destes por um governo, em épocas de ditadura, ou pela classe dominante. Há, por conseguinte, menor grau de diferenciação entre as pessoas e uma menor mobilidade entre as classes. A menor confluência de idéias leva, conseqüentemente, a um menor desenvolvimento em todas as esferas.
Além de inconstitucional, na maioria das vezes, a repressão à liberdade pessoal impede a manifestação de idéias, de uma criatividade singular, e barra o crescimento de toda uma nação. O desafio está em tornar as teóricas constituições práticas e conseguir conviver com as liberdades individuais, mesmo que isso implique na retração de algum objetivo pessoal. Os benefícios de participar de uma sociedade em que cada indivíduo faz o melhor para si e para o grupo serão, certamente, compensatórios.

Começando..

Primeiro, peço licença ao caro velho conhecido Spinoza, que começou filósofo e terminou polidor de lentes, para utilizar-me do título desse blog. Coisas que eu penso certa vez, esparsas, concretas, distantes, interessantes, felizes ou não, mas que eu gostaria que fossem compartilhadas nem que seja por meio da escrita no espaço eletrônico aqui estarão. Espero visitas!